RESENHA CRÍTICA DE STEPHANIE BORGES SOBRE "O MUGIDO", DE MARILIA FLOÔR KOSBY

Atualizado: 21 de Ago de 2019


As pessoas sensíveis não são capazes De matar galinhas Porém são capazes De comer galinhas Sophia de Mello Breyner Andresen



Nunca vi uma vaca de perto.


Sempre achei curioso como os animais eram capazes de falar em contos de fada ou nas fábulas de Esopo e La Fontaine. Deuses egípcios tinham cabeças de ave, de cão, de gato. Nos mitos gregos, os deuses se transformam em animais para se disfarçar e vagar pela terra. Criaturas híbridas como as sereias, os sátiros, os centauros e o minotauro parecem vestígios de um mundo no qual humanos e animais ainda estavam tão próximos que a existência de seres que misturassem os dois e não fossem uma coisa nem outra parecia provável. Nos mitos iorubás, os orixás se tornam rios, neblina, o arco-íris, e os animais estão integrados a essa vida ancestral. Convivem com os orixás e são a caça, os rebanhos, a comida sagrada e os sacrifícios.


No entanto, veio o monoteísmo:


E fez Deus as bestas feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo réptil da terra conforme a sua espécie. E viu Deus que era bom.


E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme à nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. [Gênesis 1: 25–26]


Talvez a cultura cristã ocidental e o capitalismo possibilitem aos seres humanos levar a sério demais a ideia de dominar todas as outras formas de vida. Quando observamos o impacto das mudanças climáticas, notícias sobre o uso excessivo de agrotóxicos, o desperdício de alimentos e os escândalos envolvendo a indústria pecuária, é difícil não pensar que o domínio humano vai mal.


Apresento todo esse contexto biográfico, mítico e noticioso para pontuar o quando o “Mugidode Marília Floôr Kosby é um livro necessário. Para pensarmos paisagens diferentes do Brasil, fora das representações recorrentes da classe média urbana. Para ouvirmos sons diferentes, cadências, sotaques, o vocabulário do campo no sul do sul. Para nos lembramos de como encontrar a carne embalada no mercado nos distancia da pergunta “eu comeria um bicho se tivesse que matar, tirar as penas, o couro, desossar com as minhas mãos?"


É possível sentir o impacto do “Mugido ainda que você nunca tenha visto uma vaca. Muito menos guardado rebanhos.


Vale destacar que livro passa longe de uma defesa de hábitos alimentares e éticas de consumo. Não há o intuito de convencer o leitor a nada. No entanto, como uma obra que dialoga com o nosso tempo, ele nos mostra como as coisas não são tão simples. Sem respostas fáceis. Precisamos refletir sobre nossas escolhas e o impacto delas numa escala maior. É uma leitura que provoca inquietações e perguntas.


Um dos pontos mais delicados é o afeto que desenvolvemos ao conviver com os bichos. A compaixão com sua dor. Diante da opção pelo sacrifício, qual decisão tomar? A misericórdia pode ser tanto dar fim ao sofrimento, quanto tentar preservar a vida. As deles, as nossas. Por que algumas vidas ainda são consideradas mais valiosas que as outras — não apenas na distinção ser humano e bicho, ou entre homens e mulheres, — mas dependendo de onde você nasceu, sua cor, sua classe?


Ao observarmos fêmeas parideiras e leiteiras de outras espécies, é difícil não pensar em como mesmo sem ter filhos nem amamentar, as mulheres mantém a clareza da nossa condição mamífera. O cio, o sexo, o parto. Os versos do diários de uma doula nos mostram como na hora da reprodução e do nascimento podem ser parecidos os processos obstétricos e veterinários. A persistência da visão da fêmea, da mulher como uma criatura a ser amansada, montada, domesticada [em favor de quê ou quem?].

Os miúdos, as tripas, a língua, a buchada, o coração, os rins, partes consideradas menos nobres, mas que fazem parte de toda uma tradição culinária, geralmente entre pessoas que cresceram em famílias grandes e sem condições de alimentar a todos com bife.



Uma poeta toda um tímpano só. Ouvido atento, capaz de se dar conta de como ouvir um mugido não é suficiente, é preciso olhar e perceber o esforço que mobiliza um corpo imenso. Uma poesia de versos curtos e imagens fortes, nos quais cabem o peso, os filhotes, o leite e a fragilidade de uma vaca, sem contradições.


Na desarticulação, Marília nos aproxima de coisas das quais talvez tenhamos nos afastado entre a civilização e a cidade, e às quais precisamos voltar a prestar atenção. Tanto no gênesis quanto na teoria evolucionista, os quadrúpedes nos precedem. Os bichos nos conhecem. E a nossa insistência em negarmos nossas semelhanças com outras criaturas desse mundo tem nos levado a uma exploração desenfreada que coloca os humanos em risco.


Mugido vem na contramão de uma visão asséptica da vida. Vibra mmmmmm entre pulsos finos e firmes, dedos hábeis para carícias, a destreza com a faca para sangrar uma vaca, o couro usado para fazer corda, as paixões de peruas e galinhas, gatas e cadelas no quintal, a bosta.


Nunca vi uma vaca de perto. Mas acredito que a poesia seja a forma mais próxima e precisa para tentar traduzir o êxodo, aquela melodia, aquele esforço todo, o Mugido.


texto de Stephanie Borges

publicado originalmente em Mulheres que Escrevem, dezembro/2017

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