: pescoço

x sobreviventes

Título Universal

Carla Diacov

: pescoço x sobreviventes | carla diacov

: pescoço x sobreviventes | carla diacov

R$ 45,00Preço normalR$ 40,50Preço promocional

:

as xícaras postas

e há outras bocas outras línguas outros dentes cariados

outros buracos dificultados 

dentistas mais chistosos

dentaduras de pérolas

jaquetas de couro de bolsa de madama

pontes levadiças com engrenagens rockabilly

na bestialidade rebelada do chá

o antigo gosto pela sacanagem infantil

arrancar a casca da ferida

por debaixo da assombração 

outras culturas de chá

a composição perfeita da porcelana 

digo

os ossos que fazem a cama

sob os lençóis de ontem

xícaras bonecas volição 

um torrão meu três nossos

meu pente cariado de náilon

tudo de açúcar gordo

o rosto da boneca cariada de beijos

o jogo de chá parece o jogo

os ossos que fazem o jardim

impossível curar uma boneca zarolha dos brancos

 

Alice nunca teve pescoço

morreu comendo um bule de marzipã

 

colherada de silêncio:

 

esse charuto não é inédito

pass the fucking ashtray tea set, doll

 

 

**

 

:

o nível da saliva vai subir e

o amor vai ser adiado para outro beijo

um em sedimento 

dentro daquele livro

respeitosamente junto da flor escrita como o diabo

em memória do caminho vermelho

pelo pescoço

o nível das folhas secas vai subir

por isso mesmo

preenche saber

a consanguinidade outra

pelo nível do amor

o nível dos verbos vai subir

e os pescoços serão sinais flutuantes do novo horizonte:

**

x

a sobrevivente toca fazer chá

da erva qualquer

qualquer erva é doce santa ácida daninha

a sobrevivente sabe o chá

pela goela até os pés

passando pela benfeitoria

qualquer benfeitoria é

toca pela mazela 

um encanto qualquer

desentope a biografia com o rabo do gato morto

então vejamos também os benefícios do escalda-pés

 

a sobrevivente toca fazer chá

como toca a desafiar o ponto de fervura da água benta

qualquer água é

**

O novo livro de Carla Diacov, sétimo da autora e sua estreia na garupa, é um outro e novo desdobramento de sua poética fragmentária e sarcástica, caleidoscópio de sentidos. Nele, a poeta intensifica sua aposta no atravessamento e no jogo com a loucura, como explora o posfácio-conversa entre os escritores Erica Zíngano, Francine Jallageas e Tom Nóbrega. 

 

: pesçoço X sobreviventes atua no limite da desrazão, ou melhor seria dizer, da derrisão: sugere algum riso zombeteiro frente ao sentido, uma jocosidade contra a nossa linearidade lógica. Ao longo do livro, encontramos um diálogo entre duas vozes sem rosto – representadas, como sugere o título, pelo sinal : quando tratando-se do pescoço e pela letra x quando dos sobreviventes –, que não fixa sobre elas nenhum arquétipo encerrado em si mesmo. 

 

Parece haver um jogo entre dois eus líricos que assumem diversas faces, se intercalam e se opõem. Entre as tantas possibilidades de leitura, há nesse diálogo ruidoso entre pescoço e sobreviventes uma conversa entre aqueles que assumem o risco e aqueles que se deixam tomar pela neurose coletiva. E o pescoço, elo que une (e separa) a cabeça ao corpo, sugere ainda alguma coerência diante de um mundo repleto dos que, suportando-o, apenas sobrevivem. Leituras que não se encerram e não encerram o livro e, justamente por isso, evidenciam uma das características mais marcantes da poética de Diacov: a impossibilidade de enquadrar os poemas em sentidos únicos, dar a eles interpretações rápidas. 

 

Com uma sintaxe de novos encaixes, ou em alguns momentos investindo na potência do ato falho – como quando louça vira louca e assim dá-se um chá da tarde – a poeta convoca a potência da linguagem de ser uma superfície que oculta e mostra o real no mesmo gesto. Como se fosse a fala de um chapeleiro maluco, o famoso personagem de Alice no país das maravilhas que, com sua visão distorcida e desordem discursiva, pavimenta o delírio como um atalho. E em tempos de distopia como os que vivemos, a aposta no ponto cego da linguagem parece, nesse livro, restituir ao poeta alguma bússola possível. 

 

**

 

14 x 21 cm

132 p.

ISBN: 978-65-88253-04-5

Carla Diacov [@diacovcarla] nasceu em São Bernardo do Campo em 1975. Lançou os livros Amanhã alguém morre no samba (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), 

A metáfora mais gentil do mundo gentil (Edições Macondo, 2016), Ninguém vai poder dizer que eu não disse (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro online pela Enfermaria 6, 2017),  A menstruação de Valter Hugo Mãe (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017) e A munição compro depois (Cozinha Experimental, 2018).

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